Nesta época do ano, as pessoas se permitem um olhar retrospectivo, a partir do qual se tenta estabelecer os fatos de maior importância do ano que passou. Assim, retomam-se os escândalos políticos de março, as novidades literárias de setembro e os grandes lançamentos cinematográficos do verão. Os mais entusiasmados chegam a esboçar intermináveis listas de "melhores" e "piores", de "revelações" e "decepções".
Costumo achar esse tipo de coisa um porre. Primeiramente, tendo a desprezar a opinião de jornalistas. A maioria não tem capacidade de apreciar a conseqüência de uma obra de arte ou de uma situação política que se configura. Suas análises são circunstanciais, ineptas a transpor o presente. Com isso, não passam de fofoca ou crítica rasteira.
Em segundo lugar, tenho certo horror a esse tipo de olhar-síntese que toma conta das pessoas ao tempo das festas de fim de ano. É o reverso da moeda daquela visão esperançosa e prenhe de promessas que costuma rondar as conversas a partir de primeiro de janeiro. Arbitrariamente, demarcam-se períodos incomunicáveis no inexorável fluxo da vida. Para mim, trata-se de um gesto infantil e – o que é pior – mistificador.
Feito esse preâmbulo, posso eu entregar-me a retrospectivas. A minha, contudo, não se restringe ao ano que passou. Tampouco é fruto do espírito dezembrino. Advém, sim, de meu interesse em compartilhar com Tahi um pouco do meu amor pelo cinema.
A minha retrospectiva não é dos melhores da história. Tampouco é dos melhores filmes que já vi. É, antes, uma antologia de cenas que perduram em minha memória. É uma antologia da arte, em sua grandeza, que moldou meu espírito e ajudou formar a minha maneira de experimentar o mundo. Há muitas cenas, para mim memoráveis. que não estão aqui. Os motivos são vários. Creio que os mais comuns sejam: indisponibilidade (i.é, ausência de vídeo), como é o caso da derrota no picadeiro de Noites de Circo, e esquecimento (sim, pois há grandes filmes cujo nome ou roteiro não me é mais possível evocar).
Os ImperdoáveisEste filme é uma seqüência de cenas memoráveis. Para lhe fazermos justiça, seria necessário selecionarmos mais uns três ou quatro trechos. Todavia, escolherei apenas um.
Os imperdoáveis é um filme que tenta retomar o western através do resgate dos seus principais elementos: o xerife corrupto, o inabalável sentimento de missão do protagonista etc. etc. Nesse processo de resgate, contudo, o espectador enxerga o anacronismo e a inviabilidade dessa maneira de se retratar o mundo. A brutalidade não é heróica, não é gloriosa, não é bela. Por isso, o tom gradiloqüente do western soa falso ou exagerado, servindo apenas como recurso irônico. Clint Eastwood tenta dar profundidade ao gênero, atualizando-o à nossa maneira de ver o mundo. Ao fazer isso, destrói o sistema artístico western. Não mais é a representação de uma ordem de valores e de procedimentos estéticos que funciona de maneira autônoma, segundo a sua própria lógica. Trata-se mero elemento incidental, de caracterização de cenário e trejeitos das personagens.
http://br.youtube.com/watch?v=8wGiJcq95Ug&feature=relatedA passage to IndiaA expressividade do rosto de Judy Davis é algo que me fascina. É pena não haver no youtube cópia do trecho em que ela desmaia, em razão da atração/repulsa que sente pelo médico indiano. O seu refinamento dramático em Passagem para a Índia pode ser apreciado aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=vmiLiwJjzGEA fonte da DonzelaA pureza da moça quase dissuade o bando de seu intento criminoso. Recobram o impulso, ao que parece, pelo prazer de conspurcarem aquela alma inocente. O contraste entre a maldade latente e a pureza reforçam a natureza criminosa, irredimível, do ato.
http://br.youtube.com/watch?v=qdMbnRquuKIO Porteiro da Noite, de Liliana Cavani
Esta é, certamente, a cena cinematográfica que mais repulsa me trouxe. A confluência do abominável (i.é, o nazismo) e erotismo até hoje me traz mal-estar e perplexidade. É o mais bem acabado retrato da depravação.
http://br.youtube.com/watch?v=CLcKiC3Vro0AguirreUma atuação soberba de Klaus Kinski nessa aventura conradiana, em que as privações da vida selvagem põem abaixo o sistema de valores do homem ocidental.
http://br.youtube.com/watch?v=ZDlra8SsuXc&NR=1Arca RussaUm filme soberbo. Uma rapsódia da alma russa. Aqui, neste baile, reconheço passagens de Guerra e Paz. Não é a melhor parte, mas impressiona.
http://br.youtube.com/watch?v=AEaRgxJ8NNU&feature=relatedLawrence da ArábiaA aparição de Omar Sharif em Lawrence da Arábia é um dos grandes clichês de antologias. Ainda assim, ela consta na minha lista. Sharif é a virilidade encarnada, a força que inspira os homens e corrompe as mulheres. No filme de David Lean, atormentou os olhares da personagem de Peter O'Toole.
http://br.youtube.com/watch?v=FvBcl40QOhQ&feature=relatedO Último dos Moicanos.Muito melhor que o insosso romance, o filme vale por sua cena final. Um casamento perfeito entre música e imagem, enfeixa de maneira ímpar o amor em toda a sua grandeza e inconseqüência. O olhar desnorteado de Alice à beira do precipício me persegue há anos.
http://br.youtube.com/watch?v=5SoeDAPj6ggBlade RunnerAs palavras se bastam. Parece-me variação de um trecho de Macbeth.
http://br.youtube.com/watch?v=ZTzA_xesrL8&feature=relatedNós que nos amávamos tantoLidar com a passagem do tempo é algo complexo, sobretudo no cinema, arte em que a voz organizadora do narrador não pode se fazer explícita e decretar que muitos anos se passaram. A cena da Piazza Caprera supera esse impasse por meio da evocação da imagem da roda do tempo e da fortuna. O tempo passou e destruiu todos os sentimentos que havia entre as personagens.
http://br.youtube.com/watch?v=8xzB7Bm5878Morte em VenezaAgonia de Aschenbach dispensa comentários ou explicações. Ah, Dirk Bogarde...
http://br.youtube.com/watch?v=n3pOn_qymIwThe Ballad of Jack and RoseEste é certamente um filme menor. A música é conduzida de maneira inábil e a mocinha, conquanto bela, é uma atriz aquém das exigências dramáticas da personagem. No entanto, raras vezes vi um retrato tão preciso da natureza pecaminosa do ser humano. Pai e filha vivem em paz, retirados de nosso mundo degradado. São um corolário prático das velhas teorias rousseanianas de que o homem nasce bom mas a sociedade o corrompe. Tal acepção, contudo, é progressivamente erodida pela atração incestuosa que nasce entre eles. Do bem, de seu esforço contínuo em fazer o bem e serem bons, emerge o mal. São eles mesmos os agentes de destruição do paraíso que construíram à custa de tanto isolamento. Nós somos, invariavelmente, a nossa própria serpente. Na cena abaixo, a serpente triunfa mais uma vez.
http://br.youtube.com/watch?v=wB8TrxfKhWsTi.