Uma das tentações mais recorrentes do blogueiro é a de entregar-se ao ensaísmo fácil. Afetando despretensão, disserta sobre temas aparentemente irrelevantes num estilo leve e descontraído, que explora paradoxos superficiais e finge descortinar contradições insolúveis. O resultado é conhecido: o Montaigne virtual revela as verdades profundas que dormem latentes em situações aparentemente triviais. Os exemplos são vários, desde o sábio que vê revelar-se a solidão do homem no ato de despreocupadamente tirar caca do nariz, até o arguto observador que tece comentários acerca da ironia do nosso tempo, que transformou a figura de Che Guevara num pin-up, mais um produto da sociedade capitalista. Como resultado, tem-se um texto agradável, engraçado e com grande propensão a conquistar a simpatia do leitor ocasional. No entanto, é um texto vazio.
Desse laissez-aller de idéias, forja-se uma personagem que, de algum modo, flerta com a imagem que tradicionalmente se tem do gênio: alguém que não precisa pensar para alcançar a verdade. O texto não é produto de reflexão ou estudo, do labor intelectual, mas, sim, de um “olhar privilegiado” sobre a realidade, de uma intuição profunda sobre a natureza das coisas.
Esse modo de escrever, obviamente, inviabiliza qualquer debate, qualquer discussão séria e fundamentada sobre qualquer assunto. Isso ocorre porque se abandona a assunção de que a linguagem serve, antes de tudo, para comunicar idéias — idéias essas que devem ser confrontadas e debatidas. Tem-se mais interesse em chamar atenção para a forma enfastiadamente elegante do ensaio do que para o poderíamos chamar de conteúdo do ensaio. Não se quer dizer nada, apenas afirmar a genialidade do autor nas entrelinhas das figuras de estilo.
Para mim, no entanto, nada é mais tedioso que as elucubrações flóridas e anárquicas desses falsos gênios.
Ti
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1 comment:
Um pouco de lirismo para espantar os gostos populares que polulam esse blog.
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