Num interessante ensaio intitulado The sense of an ending, Frank Kermode discute o mal-estar que, segundo ele, perpassa toda a literatura: como dar cabo a uma narrativa. Cedo ou tarde, o enredo se esgota e o leitor deverá fechar o livro. Cedo ou tarde, o escritor precisará conceder um sentido retrospectivo àqueles fatos dispersos que nos narrou ao longo de tantas e tantas páginas. O tempo antes linear, mera cronologia, converte-se ao final em história, uno, pronto para ser interpretado porque prenhe sentido. Diante disso, perguntam-se os escritores: como terminarei minha narrativa? Serei capaz de dar um final à altura das questões suscitadas ao logo de minha obra? O fim do livro se apresentará ao leitor como conseqüência lógica da realidade literária criada ou será apenas um suspender da pena, “um acabou porque tinha que acabar”?
Felizmente, essa vexa quaestio não se apresenta quando nos propomos a escrever um diário. Aqui, não há fim a ser narrado. Ou melhor: o fim não será narrado. Será o silêncio. O silêncio da morte ou do desinteresse em dar continuidade ao ritual diário de confessar-se. O mesmo vale para os diários da vida moderna, os blogs. Escrevemos quando nos dá na telha, até o momento em que acharmos mais conveniente.
Para mim, a grande aflição daqueles que escrevem um diário é começá-lo. E por quê? Porque escrever um diário, hoje em dia ao menos, não é algo natural. Requer um propósito, uma justificativa para nós mesmos ou para um eventual bisbilhoteiro interessado em xeretar as nossas impressões sobre o mundo. Percebi isso quando ainda era moleque, um mancebo de quatorze anos. Após ler A náusea, quis ver-me como Roquetin: a dissertar em páginas íntimas acerca da pusilanimidade do mundo. Antevia-me surpreso defronte da minha própria profundidade, e deleitava-me ao imaginar como seria capaz, por meio de um diário, de captar todos os matizes de meu sofrimento. Se não me achava suficientemente profundo em meu dia-a-dia, acabaria por fazer-me gênio, um gênio atormentado, por meio de paciente auto-observação.
Quando me fui lançar às anotações de meus sofrimentos, no entanto, senti um travo. Não conseguia escrever. Não podia começar a escrever um diário como se começa um romance, apenas com descrições aparentemente inconseqüentes das coisas que estão ao meu redor. Num diário, temos de decretar o sentido do que é descrito (i.é, a nossa vida) desde a primeira linha. É preciso interpretar, interpretar-nos, a cada nova entrada, a cada novo comentário. Nosso sentido não será dado ao final, retrospectivamente. Queremos manuseá-lo, compreendê-lo, alterá-lo. Assombrado ante essa constatação, pus o diário na mesa e desisti da idéia.
Mais velho, resolvi voltar à idéia do diário. Agora, no entanto, ele será público, e em companhia daquela que me tem servido, ela mesma, como que um meu diário, porquanto tem sido depositária de todos os meus anseios e testemunha de todos os meus dissabores: Tahi. Juntos, decretaremos o sentido das coisas, e criaremos um novo mundo por meio de nossa palavra. Sem medo do fim.
Ti
Monday, 1 December 2008
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
No comments:
Post a Comment